Quando ainda bem jovem tive meu primeiro contato com a vela. Foi nas águas do Rio Peraqueaçú em Aracruz, a bordo dos pequenos Dingues, Veleirinho monotipo de apenas 3 metros. A sensação de liberdade me invadiu e vi ali muitas possibilidades, encantado pelo impressionante deslocamento do pequeno bólido sem motor, impulsionado apenas pelo vento. A vida seguiu seus rumos e os sonhos e objetivos foram sendo buscados, o maior deles, ser piloto da Força Aérea. Aquele jovem do interior do Espírito Santo que chegou na AFA no verão de 1984 também tinha na cabeça uma intrigante vontade de se aprofundar na arte de velejar, mas o mar estava longe de Pirassununga e as energias estavam todas direcionadas para o Curso de Formação na AFA.
Ainda tive o prazer de pequenas velejadas com o amigo Canguru, a bordo do seu Laser (Veleirinho de 4,20m) nas águas da lagoa em Santa Cruz da Conceição nos fins de semana quando não aconteciam as atividades no Clube de Voo a Vela. Em 1988 chegamos em Natal e novamente pude velejar mais um pouco, agora a bordo da jangada do marido da nossa funcionária doméstica, que era jangadeiro. Ali o encanto pela vela desabrochou de vez, a simplicidade e ao mesmo tempo sofisticação daquela embarcação raíz me deu a certeza de que a vela poderia me levar a qualquer lugar do mundo, com um custo muito baixo. Nas poucas vezes que velejei nessa jangada foi quando mais entendi e aprendi sobre a arte de velejar e desenvolvi conceitos que balizaram toda a minha vida náutica: menos é mais, o simples funciona melhor e o mais importante, o que não tem não quebra. Esses conceitos, anos mais tarde, seriam determinantes para o meu planejamento de volta ao mundo.
Após Natal foram 3 anos no 1°/15° GAv em Campo Grande e 5 anos como Instrutor de voo na AFA. 8 anos sem entrar em barco algum, mas me aprofundando na literatura náutica. Nesse período consumi avidamente tudo sobre vela, li e reli os clássicos dos grandes velejadores brasileiros e estrangeiros que deram suas voltas ao mundo. A maioria desses livros li pelo menos 3 vezes. A primeira por puro deleite. A segunda focando nas soluções adotadas para os mais variados problemas, como logística de manutenção e alimentação, as rotas traçadas e principalmente as datas de saídas e chegadas em cada travessia. Entendi que o mar não “é”, o mar “está”. Todo mar, mesmo nas grandes latitudes, tem seus meses de tranquilidade. Entender a melhor temporada para estar em cada região do planeta era a chave do sucesso para uma volta ao mundo velejando em segurança, e tudo isso estava nas entrelinhas das histórias contadas pelos circum-navegadores em seus livros.
A terceira leitura era quando dava saudades. Sim, velejava com eles lendo seus livros e depois de um tempo sentia saudades de estar ali novamente. Aí pegava o livro e viajava mais uma vez nas suas viagens. E cada releitura era um novo aprendizado. E a carreira na FAB foi seguindo seu rumo, me proporcionando uma transferência para Brasília em 1997, aonde servi 2 anos no extinto Estado-Maior das Forças Armadas - EMFA e 4 anos no Grupo de Transporte Especial - GTE. Chegando em Brasília me deparei com o belo Lago Paranoá e decidi que era a hora de viver a vela integralmente e ali, a 1.500 km do mar, comecei a colocar em prática meu projeto de volta ao mundo. A partir daí tudo que eu fazia era voltado para a vela. Escolhas, decisões, prioridades, dinheiro, fins de semana, feriados, férias, amizades… tudo era decidido de forma a se encaixar nas atividades náuticas. Assim, em 2003 pedi transferência para o PAMA-RF, era a hora de se aventurar no mar. Foram 3 anos velejando nas águas verdes-esmeralda pernambucanas e em 2006 chegou o momento de cursar a ECEMAR. A mudança e o carro seguiram de caminhão, eu fui velejando do Recife ao Rio de Janeiro. Após a ECEMAR fui classificado na V FAE e assim pude continuar velejando na paradisíaca região de Angra dos Reis.
Em 2012 realizei o CPEA e após a conclusão do Curso pedi transferência para a Reserva Remunerada em fevereiro de 2013. Quando iniciei meu planejamento da volta ao mundo em 1988 defini o momento da passagem para a Reserva como o início da minha viagem, porém “caí curto” no meu planejamento financeiro, não tinha a grana nem o barco ideal. Fatores adversos surgiram, impactando diretamente os planos traçados. A solução foi buscar novos recursos e iniciei a carreira de piloto civil na aviação executiva, indo morar em São Paulo. Foram 5 anos nessa atividade voando Learjet e Phenom 300 para finalmente ter o barco preparado e os recursos financeiros alocados. Em novembro de 2018 tomei a difícil decisão de pedir demissão de um super emprego e mudar radicalmente de estilo de vida. Havia chegado a hora de colocar em prática um planejamento de 20 anos e realizar um sonho de infância e nada poderia me impedir. Se não tomasse a decisão naquele momento talvez nunca mais o faria e certamente me tornaria um velho frustrado e amargurado. Finalmente no dia 10 de julho de 2019, na Marina Bracuhy em Angra dos Reis, soltei as amarras do Free Wind, meu pequeno veleiro de 37 ft, minha casa nos próximos anos sem um CEP definido.
A primeira fase da viagem foi do Rio até o Panamá, com paradas no Rio, Búzios, Vitória, Caravelas, Abrolhos, Caravelas, Camamu, Salvador, Barra de São Miguel, Recife, Fernando de Noronha, Natal, Fortaleza, Ilha de Lençóis, Ilha de Marajó, Belém, Ilha de Marajó, Grenada, Los Roques (Venezuela), Curaçao, Panamá. Me preparei para seguir solo na viagem, mas sempre surgia um amigo para me acompanhar dias antes das saídas. Algumas poucas pernas realizei em solitário, e a mais marcante delas foi o trecho Curaçao - Panamá. Foram 750 NM em 5 dias. 5 dias sozinho com o barco, o mar, o vento, peixes e gaivotas, 5 dias numa viagem interior, uma viagem dentro da viagem. O mais assustador foi descobrir que só aquilo bastava, descobrir que durante toda a minha vida quanto sentido havia dado a coisas que não faziam o menor sentido. Cheguei no Panamá pleno, confiante, feliz por finalmente me sentir integrado à natureza, me sentindo parte dela pela primeira vez na vida, a respeitando e sendo permitido por ela estar ali.
Era março de 2020, a próxima perna era a travessia do Pacífico após passar o Canal do Panamá. Tirei o barco da água para uma grande revisão e a instalação de um leme de vento, estava vivendo e respirando só meu mundo oceânico, desligado do mundo terreno. De repente chega uma notícia bombástica. Um vírus que havia surgido na Ásia e impactava a Europa chegara nas Américas. Numa decisão radical os governos estavam declarando lock down total. Larguei minhas ferramentas e com as mãos trêmulas e sujas de graxa abri o celular, entrei no site do governo panamenho e descobri que em uma semana portos e aeroportos seriam fechados e patrulhas policias inibiriam a circulação pelas ruas por prazo indeterminado. As decisões decorrentes deste novo cenário eram impactantes e urgentes. Negociei com o gerente da marina a estocagem do Free Wind por 6 meses e comprei uma passagem aérea para o Brasil decolando no dia anterior ao lock down. Após a euforia da travessia mais sublime da viagem a tristeza da sua interrupção. A cabeça cheia de dúvidas, o sonho descontinuado, a alma entristecida. Me despedi chorando do Free Wind. Saí do Brasil velejando com a promessa de voltar velejando. Mas a realidade era bem diferente, voltava de avião e sem meu barco, que ficou estocado fora d’água, jogado no fundo de um pátio num longínquo país da América Central. Nebuloso momento. Passei a pandemia do Corona vírus no Brasil, junto com familiares, aguardando o fim do lock down e a abertura dos portos e aeroportos.
Em outubro de 2020 o governado Panamenho anunciou o fim das restrições para dezembro, de imediato comecei a planejar meu retorno. Fui em busca de um tripulante para me acompanhar na grande travessia do Pacífico e de pronto pensei num grande amigo que já havia velejado comigo de Recife para Noronha em 2003. Ao consultá-lo o mesmo não titubeou, topou de imediato. E assim, o Águia Fernando Baldini Benevides, o BalBal, tripulou o Free Wind toda a segunda fase da viagem, do Panamá ao Brasil. Chegamos no Panamá no dia 1° de março de 2021, muito trabalho nos esperava. O barco estava estocado há 1 ano, tudo deveria ser revisado, desmontado limpo e remontado. Após o barco pronto ainda precisamos esperar a abertura das Ilhas do Pacífico. Sim, o Pacífico estava todo fechado. O vírus do COVID se espalhou para Oeste, começou na China e se espalhou pela Ásia, Europa, África, Américas e por último o Pacífico. Isso impactaria profundamente o planejamento da viagem, pois não conseguimos visitar grande parte das ilhas e países do Pacífico, fechados pelo COVID em 2021 e alguns ainda em 2022.
Atravessamos o Canal do Panamá e na Cidade do Panamá aguardamos pra prosseguir na viagem. Quando o Equador anunciou sua abertura seguimos para Galápagos, mesmo com a Polinésia Francesa ainda fechada. A segunda fase da viagem foi do Panamá ao Brasil, com paradas em Galapagos, Polinésia Francesa (Nuku Hiva, Ua Pou, Fakarawa, Tahiti, Moorea, Raiatea, Huahine e Bora-Bora), Fiji, Nova Caledônia, Austrália, Indonésia, Christmas Island, Kocos Island, Mauritius, África do Sul, Ilha de Santa Helena, Brasil. Essa segunda fase foi muito mais desafiadora que a primeira. Além das belezas estonteantes das paradisíacas ilhas do Pacífico Sul, convivemos com povos de culturas, valores e crenças bem distintos de nós ocidentais. Atravessamos 3 oceanos: Pacífico, Índico e Atlântico. Enfrentamos grandes tempestades. Tivemos panes cabeludíssimas que desafiaram nossa capacidade de gerenciamento dos recursos disponíveis, gerenciamento do risco e tomadas de decisões e por fim, o grande desafio de montar o Cabo da Boa Esperança no extremo sul do continente africano, o temido Cabo das Tormentas, que fez jus ao nome: tiro, porrada e bomba. Saindo de Cape Town pela frente se descortinava nosso Atlântico Sul, com ventos leves e mar tranquilo em pleno verão. Proa de casa! Após 2 anos concluímos a segunda fase da viagem chegando em Vitória no dia 20 de fevereiro de 2023, quando completei minha viagem de volta ao mundo velejando.
BalBal que havia começado sua viagem no Panamá reembarcou em Salvador num veleiro inglês que conhecemos em Fiji e praticamente nos acompanhou nesta parte da viagem até o Brasil e com eles foi até o Caribe, chegando novamente no Panamá e também concluindo sua volta ao mundo velejando. Após quase 4 anos de jornada, quando avistei o monte Mestre Álvaro no litoral capixaba e com a vós embargada gritei “Terrraaaaaa a vistaaaaaaa”, o sonho da volta ao mundo velejando estava realizado. De tudo que vi e vivi nessa viagem o mais marcante foram as pessoas que conheci. Dessa convivência com velejadores e nativos de todo o mundo compreendi que cada mente é um Universo, e nosso Universo é do tamanho de nossos sonhos.
E assim relatei nossa chegada ao Brasil no livro de bordo do Free Wind:
Segunda feira de Carnaval, 20 de fevereiro de 2023, 06:00 da manhã, Atlântico Sul. Após uma noite muito chuvosa, a 1° terra que avistamos foi o Mestre Álvaro, monte imponente ao norte de Vitória que desde sempre balizou os pescadores capixabas que se lançavam ao alto mar. É a referência geográfica que me faz sentir em casa após 3 anos e meio navegando pelo mundo. Foram 28.000 milhas náuticas. 52.000 km de muita água, muito mar e muito vento. 13 países e dezenas de ilhas, praias, ancoragens, povos, culturas, costumes, religiões, músicas, danças, comidas, temperos, cores, sabores, plantas, frutas, árvores, rios, montanhas e vulcões. Muito mar, muitas ondas, tempestades, calmarias, muita chuva, muito sol, céu azul, céu estrelado, céu nublado, nascer do sol, pôr do sol, lua nova e lua cheia. Água verde, água azul, água azul claro, água azul piscina, água azul marinho, água marrom, água translúcida, água turva, água limpa e água suja. Águas rasas e águas profundas. Águas que lavaram a alma. PLANETA ÁGUA!
Incontáveis pássaros e golfinhos, baleias, leões marinhos, focas, tubarões, arraias e muita vida na imensidão azul. Mãe natureza nos deu peixes, polvos, lulas, lagostas, ostras e mexilhões. Centenas de amizades foram seladas. Milhares de sorrisos, gargalhadas, abraços, beijos, lágrimas, chegadas, despedidas, saudades, suspiros, emoções, percepções, certezas, dúvidas, angústias, decisões, indecisões, erros, acertos, medos e orações. A alma não se coube pequena, transcendeu e fez tudo valer a pena, muito a pena. Obrigado Free Wind, que com galhardia e elegância deslizou pelos sete mares e nos levou ao paraíso para depois nos trazer em segurança para casa.
Volta ao mundo realizada com sucesso. Coração apertado, mente expandida, buscando entender tudo o que foi vivido e no que se transformou.
Bons ventos e céu azul, sempre!!! Veleiro Free Wind - Brasil. 🌎⛵ 🇧🇷 🇬🇩 🇻🇪 🇨🇼 🇵🇦 🇪🇨 🇵🇫 🇫🇯 🇳🇨 🇦🇺 🇮🇩 🇨🇽🇨🇨🇲🇺🇿🇦 🇸🇭 🙏 com Dom Baldini Fox Bravo em Vitória, Espirito Santo, Brazil.
