Turma 96

(Roberto Uchôa de Paula)



A Primeira Noite a Gente Nunca Esquece...

Era uma quinta-feira, 6 de janeiro de 92. Para alguns, a cansativa maratona de vestibulares terminou no dia anterior, o último dia da Fuvest, mas muitos ainda se defrontariam com segundas fases em diversos pontos do Brasil. O dia mal havia começado, quando um inesperado telefonema abalou a rotina de todos. O interlocutor, um desconhecido "Cláudio Jorge", acordava muitos dorminhocos com a feliz notícia da aprovação no vestibular do ITA. As reações eram variadas e inesperadas: incontida alegria, ceticismo ("é trote", diziam alguns incrédulos), histeria (geralmente, mais por parte da família do que pelo felizardo) ou simples indiferença ("ah, já esperava"). De qualquer forma, este foi um dia bem diferente em 73 lares em todo o Brasil.

Alguns dias depois, todos recebemos uma carta formal, comunicando o que já sabíamos e já nos orgulhávamos (pô, não é qualquer um que passa no ITA) e trazendo algumas informações mais práticas. Talvez, a mais importante tenha sido a data de apresentação: 16 de janeiro. É, não deu para tirar umas férias para comemorar e descansar. "Negada, toca para São José!!". Apesar da alegria, este era um momento de ansiedade para muitos (inclusive familiares): afinal, nem todos já haviam se aventurado a tentar sobreviver fora de casa.

A primeira lembrança que tenho do dia 16 de janeiro é que ele foi muito, muito longo. Pela manhã e começo da tarde, os "aprovados" começaram a chegar, vindos das mais diversas partes do país. No final da tarde, finalmente conhecemos o Cláudio Jorge, que nos deu as boas vindas e apresentou-se como Chefe da Direção de Alunos. Além do C.J., alguns veteranos também estavam presentes. Eles faziam parte da comissão de recepção e disseram que, mais tarde, falariam melhor conosco (muitos notaram o olhar sádico estampado nas faces deles). A famosa frase "o primeiro qualquer coisa você nunca esquece" caiu como uma luva na nossa primeira noite. Depois da reunião, fomos à cidade convidados pelos veteranos para uma pizzada. Depois de voluntariamente pagarmos a conta, voltamos para o alojamento. O dia seguinte seria cheio e precisaríamos dormir. Entretanto, existe uma grande diferença entre precisar e conseguir.


Visita à Siemens AG, em Erlangen (Alemanha) - 12/01/96
Não recordo com precisão o horário em que eles vieram. Só sei que fui despertado por uma tonitruante e assustadora música, executada no mais alto volume (obrigado por nada Carl Orff!!). No momento seguinte, os quartos foram invadidos por diversos elementos ensandecidos, que gritavam palavras de ordem: "acooorda, bixo!!". Antes que pudesse esboçar alguma reação, já me encontrava pregado na parede, vítima de um bem executado "g". Pelos barulhos provenientes dos outros quartos, pude notar que o meu destino estava sendo generosamente partilhado por todos.


Após este gentil despertar, fomos conduzidos, ainda aos gritos, ao hall do alojamento. Estávamos todos presentes, cada um ainda vestido com a sua indumentária de dormir (havia algumas bem engraçadas). Ali, sonolentos e confusos, fomos melhor apresentados aos nossos colegas veteranos. Estes, começaram a discorrer sobre a história do ITA, CASD, DOO, ..., dando uma idéia a todos do significado da palavra iteano (e de certa forma, da palavra bostejo também). Para promover a união do grupo, fomos convidados a participar de algumas "brincadeiras" (como 73 pessoas eram controladas por apenas meia dúzia? Só sendo bixo mesmo).

Para começar, uma pequena encenação teatral. Afim de que todos pudessem participar, era necessário um tema que fosse de conhecimento geral. Neste caso, nossos colegas escolheram "A Lagoa Azul". Além dos personagens principais, muitos participaram como figurantes: os cearenses foram as palmeiras e o Rebouças (com seu belo e marcante pijama amarelo-gema-de-ovo), o Sol. Só o que posso falar da apresentação é que ela foi um grande sucesso.

Depois, fomos conhecer a piscina do H-8, o famoso feijãozinho. Apesar de não muito limpa (melhor, totalmente imunda), o Luciano (quem?? ah, o Chambinho) ganhou o direito de ser o primeiro da turma a mergulhar nas quentes águas, por responder corretamente o porquê da piscina se chamar feijãozinho. Em seguida, os veteranos convidaram os ex-alunos do Colégio Naval para brincar de batalha naval (Rebouças vs Inácio, estou correto?).

Neste momento, surge uma semente de discórdia e de indignação. Um companheiro grandalhão, de voz grossa e fala engraçada semeia a revolta entre os oprimidos. Era ele, Feres Fares, veterano da guerra do Líbano. Tomando ação às palavras, ele liderou a revolta, que culminou com os seis veteranos dentro do feijão. Estávamos vingados. Entretanto, tão rapidamente quanto apareceram, nossa determinação e coragem desapareceram. Não chegamos nem a comemorar a vitória, pois (até agora, não sei o porquê) no momento seguinte, todos os bixos correram em disparada para os seus quartos.


Visita à Mercedes Benz, em Sindelfingen (Alemanha) - 08/01/96

Hoje, passados quase cinco anos, a Turma 96 mostra-se bem diferente daquela turma que chegou em SJC, confusa e medrosa. Conhecemos o nosso potencial e esperamos ansiosos pela trilha de desafios e sucessos que nos aguarda. Lembramos alegres e já saudosos de vários momentos que passamos juntos dentro da Escola de Vida do H-8. Lamentamos os que ficaram pelo caminho, mas que ainda e sempre ficarão nas nossas lembranças. Parabéns e obrigado por tudo Turma 96.







Um é pouco, dois é bom e três é demais

É 14 de dezembro de 1996. Baile de Formatura da Turma 96. Alegria, orgulho e vitória permeiam os homenageados no salão. Cinco anos de luta, esforço e dedicação são recompensados. Estamos formados, somos engenheiros. Além de toda a bagagem técnica, carregamos o espírito iteano e vamos espalhá-lo pelas diversas organizações que faremos parte ao longo de nossa vida. Infelizmente, este é provavelmente o último momento em que toda a turma estará reunida. A partir de agora, o grupo vai se dispersar pelas diversas trilhas que se descortinam a nossa frente. Este é um momento de saudade e de despedida.


Visita à British Aerospace, em Warton (Inglaterra) - 20/12/95
A história da nossa turma iniciou-se em 16 de janeiro de 92, quando nos apresentamos em São José dos Campos para o início do nosso (obrigatório) serviço militar. Éramos 73 jovens, vindos das mais diversas regiões do país. Cearenses, cariocas, pernambucanos, gaúchos, paulistas, mineiros, paraenses, goianos, baianos e matogrossenses formavam uma verdadeira salada cultural (e que, diga-se de passagem, nunca tornou-se totalmente homogênea: "ô trem grande, sô!" não dá para combinar com "ô macho bonequeiro!").

Todos tiveram o mesmo sonho e a garra para vencer o desafio. Todos queriam ser iteanos. Entretanto, para que pudéssemos ser chamados e intitularmo-nos de iteanos, ainda haveriam duras provas e testes pela frente.

Creio que a lembrança da primeira noite ainda está vívida na cabeça de muitos. Veteranos entrando nos quartos gritando, camas e calouros jogados nas paredes, teatros, "jogos" e "brincadeiras" madrugada a dentro, Carmina Burana ao fundo. Que cenário! E olha que alguns destes veteranos se tornaram nossos melhores amigos. Desta forma, nossa rotina nos dois primeiros meses foi rapidamente definida: CPOR(ra) pela manhã, "confraternizações" (trotes) de madrugada. Até hoje fica difícil determinar qual das duas atividades exigiu mais paciência, esforço e abnegação.

Apesar deste período entediante, sempre existirão bons momentos que serão perpetuamente lembrados em nossas saudosas conversas e que entraram no folclore da turma. As aulas de RUMAER com o Cap. Gonçalves; a educação física (Mello e a história de sua assadura); as apresentações orais (e os impagáveis temas do Émerson, Renê e Pará); as aulas de tiro ("abre o olho japonês" e o Lin respondendo "tá aberto, sô"); o uniforme feito sob medida para Otávio e Isaías; Edilson, sempre presente na lista dos "santinhos" da semana; o sumol e o aparissol; e tantas outras histórias que povoam nossas lembranças e tornam nossas conversas mais cheias de risadas.

Após uma merecida pausa para o Carnaval, finalmente travamos contato com o ITA. Naquele momento, o curso começava para valer: aulas durante a manhã; laboratórios, a tarde; e claro, trotes, a noite. Este foi um momento difícil, uma vez que encontramos uma população de veteranos ávidos e sedentos para nos conhecer melhor. Além da apreensão gerada pelos professores "famosos" (Abel, Tânia, Maria Cristina (quem???) e Weis), tínhamos de nos preocupar com alguns vets também. Terremoto, velva, palitinho, cuco, subão, "-1", ... foram algumas palavras novas que incorporamos ao nosso dicionário. Foi um período de muitas noites mal-dormidas, desconforto e frustração. Talvez por não-adaptação ao regime, talvez por falta de uma comissão de trote organizada (e existia alguma???), alguns colegas desistiram do sonho de ser iteano e optaram por outros caminhos. É triste não estarem presentes neste momento de glória, mas espero que tenham obtido o sucesso nas novas trilhas escolhidas (Saudações Sassá, Gargamel, Vargas e Cabeça de Cotonete).

Como tudo na vida, chegou o momento em que os trotes diminuíram sensivelmente, e pudemos nos dedicar mais à nossa sobrevivência na escola. Aliás, isto já não era sem tempo, pois as aulas andavam a todo vapor desde o primeiro dia (como explicar aos professores que dormíamos nas aulas não por desinteresse, mas por sono?), e alguns professores já estavam fazendo jus à fama. Inclusive, um novo personagem logo impôs temor à antiga turma 01: tenente engenheiro Forni, professor de álgebra linear ("... imagine um carro em movimento com uma mosca voando dentro dele, coloque o referencial na mosca e ...."). Como não precisássemos preocupar com o Weis (e suas apostilas de centas páginas), ou a (Sa)Tânia ("...Edilsinho, você não me comove..."), ou ainda com a Física-12 e seu trio diablo. É, não é mole não.....

Mas nem só de sangue, suor e sarrafo foi feito o primeiro semestre. Neste período, começamos a organizar os primeiros churrascos (ou será cervejascos??), participar dos bailes do ITA e aventurar-se na "noite" de São José (e isto existe???). Os churrascos seguiam uma rotina típica: sempre marcávamos de prosseguir a comemoração numa boate ou bar da cidade, mas a festa terminava com todos os participantes muito alcoolizados para darem prosseguimento a qualquer planejamento. Várias vezes, indivíduos acordavam no meio da madrugada, acometidos por uma sede infernal (por que será??), loucos por um engov ou aspirina e com aquela dúvida: "este hugo é meu?".


Treinamento no CPOR - 1992
Os Bailes eram de fundamental importância para todos os alunos, especialmente os ainda inocentes e sonhadores calouros, que ainda tinham esperança de encontrar a deusa, a mulher dos seus sonhos ... Para este evento, nós passávamos por três estados de espírito: o pré-baile (pensamento positivo resumido na frase: "é hoje!!"), o baile (o choque da realidade, ainda que amortecida pelo álcool) e o pós-baile (os, geralmente, melancólicos pensamentos "o que foi que eu fiz?!?!" e "como tive coragem!?!?"). É claro que existiam (e sempre existirão) exceções, e já vi muitos namoros (e quem sabe casamentos) começarem no escuro salão do H-15. Aliás, acredito que uma das mais fortes instituições atuais na turma, a ABITA, tenha começado nos bailes, quando um colega nosso (não se preocupe Rebouças, não vou identificá-lo) resolveu instituir e ganhar (de lavada, diga-se de passagem) o troféu dragão num dos primeiros bailes. O prêmio só não vingou porque os ganhadores eram sempre os mesmos, dividindo-se entre os membros originais do 119 e 120.

Durante o período do FUND, as opções na noite joseense não eram muito grandes (como se agora elas fossem...). Havia os programas softs e os mais pesados, onde apenas os iniciados e os portadores de estômago forte aventuravam-se a explorar. CB, Choppetisco, GH, Eclipse e tantas outras paragens foram dissecadas e reviradas pelos mais intrépidos e que seriam os futuros fundadores da ABITA. Phaeton, Atlanta, Number Two, New Wave ficavam para os mais puritanos. É claro que existiam aqueles que circulavam com desenvoltura nos dois meios, colocando uma máscara adequada para cada situação...

Falando em festas, uma das melhores era a Festa Junina do CTA. Não esta versão atual, bem menor e menos animada que as antigas, que eram abertas aos moradores da cidade. Fogueira, balões e bandeiras; movimento, danças e músicas animadas; o terreno em frente ao Cassino dos Cabos e Soldados se transformava em uma pequena cidade, em que todos procuravam se divertir ao máximo, e o ponto de encontro dos iteanos era sempre a barraca do CASD, onde a primeira versão da Banda Kaiaka apresentava um repertório único, composto principalmente de forrós e músicas baianas. Jacó (93), Bernardo (95), Geozinho (95), Osvaldo (96) e Rénede (96) - este, era o contorcionista - abrilhantavam a noite e facilitavam a descida dos capetas, caipirinhas e bocks (aliás, lançada durante o inverno de 93 e a grande novidade para o paladar etílico). Durante os dois anos do FUND, esta festa marcava o calendário pela diversão que propiciavam e pelas situações hilárias que ocorriam; e que fazem parte do folclore da turma, histórias contadas até hoje (com um certo grau de exagero, sou obrigado a confessar - NOTA DO EDITOR: não existe exagero nestas histórias, é tudo verdade, com fotos para provar), lembrando as atuações do Uchôa e do Otávio.

Apesar das baixas que sofremos (como estarão Edilson, Chagas e Péricles?), sobrevivemos e fomos para o segundo período do primeiro ano mais confiantes. Tínhamos passado pelos trotes, provas e exames; viramos noites, bebemos, rimos e choramos, mas conseguimos. Quando acreditávamos que o pior já tinha passado e que tudo era uma questão de tempo para acabar o longo FUND, percebemos quão ingênuas eram nossas pretensões. Ainda teríamos mais três períodos pela frente, cada um com suas dificuldades peculiares.

Em setembro, "relembramos" o período de tensão dos trotes iniciais enquanto esperávamos "ansiosos" pelo famigerado 100 dias da turma 92. Foram poucos os corajosos que ficaram no alojamento esperando a confraternização dos amigos veteranos, muitos já tomados pelos humores de Baco. Durante esta noite, a maioria da turma "dormiu fora de casa". Vagando pelo CTA, tal qual zumbis, ou pernoitando na casa dos tenentes (a maioria, ainda solteira), ou migrando para casas de amigos na cidade (quantos dormiram na casa do Bruno?? E do Willian ??), cada um usou um modo de dar um tempo fora do H8. Na manhã seguinte, tivemos muito trabalho para arrumar nossos quartos, palcos das comemorações dos quinto-anistas.

A partir deste período, felizmente, a tempestade amainou e salvo algumas borrascas ocasionais (não conheci um período de exames tranqüilo), o curso seguiu "tranqüilamente" (apesar dos esforços de alguns personagens famosos, como: Fraccino(ra), Sakude, Biga e as eternas musas da Matemática). Depois de dois suados anos, finalmente chegamos no Profissional, onde um novo mundo descortinava-se a perder de vista. Para muitos, a formatura já estava a vista (apesar do rosto sujo de graxa ou de argamassa, eles conseguiam enxergar o diploma). Entretanto, outros ainda penariam bastante até conseguirem vislumbrar a luz no final do túnel (para estes mais abnegados, esforçados, que fazem o nome do ITA e que lidam com a complexidade dos circuitos eletrônicos, meus parabéns!!). De qualquer forma, todo este período foi bastante enriquecedor e acredito que muitos fariam tudo de novo, se tivessem mais uma chance!! Feliz formatura, TURMA 96 e que o sucesso nunca nos abandone!! Para os futuros bixos, desejo que o projeto de FUND em três anos não seja aprovado, pois bem sei o que significa o título deste artigo!!


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Última atualização: dezembro de 2008
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